Tenho saudades.Saudades de quando, por esta altura, andava numa azáfama com as aulas, os trabalhos, as frequências, os horários, o ter de apanhar autocarros e mais camionetas, o ter de arranjar tempo para estudar, ajudar em casa e tempo para mim ao mesmo tempo.
Olho pelo canto da janela e vejo o tempo cinzento lá fora, mas só me apetecia voltar atrás e, mesmo com o tempo pouco sorridente, sair de casa e ir para as aulas, estar com pessoas todos os dias e partilhar o quotidiano com tantas outras.
Tenho saudades até dos professores mais chatos, das situações mais stressantes ou das pessoas mais fatigantes. Mas tenho mesmo saudades dos bons momentos, das folhas inteiras de conversas a meio das aulas, do convívio, dos trabalhos de grupo, dos cafés daquela máquina, das mesas daquele bar e até do silêncio daquela biblioteca.
E quando acabavam as aulas? Podia estar a chover 'a potes', mas eu logo corria para o Centro Comercial, mesmo que sem chapéu, porque sabia que ao chegar lá dentro, tu ias estar à minha espera com um sorriso quente. E aí eu perdia a noção se estava a chover ou a fazer sol. Porque era tão boa a sensação de chegar ao fim do dia e ter a tua companhia, o teu conforto, o teu 'ouvir-me'. Apanhávamos um autocarro dali para a outra paragem, e depois surgia o dilema 'Vamos a que horas?', 'Decide tu', 'Não, decide tu'. E o que um decidia, para o outro estava sempre bem. Se não nos apetecesse ir para casa, apanhávamos a última camioneta. Se até tivéssemos coisas para fazer, pedíamos desculpa mutuamente e iamos mais cedo. Mas eram dias recheados, sem dúvida.
Dias que agora são bem mais vazios e sem certezas. E, por isso, morro de saudades da sensação de entrar naquele Centro Comercial ao fim do dia.
É duro ver o tempo a passar. É duro não poder voltar a viver nada do que já passou.
Hoje apoderou-se de mim uma nostalgia.

