sábado, 30 de outubro de 2010

Um sonho



Há qualquer coisa de profundamente irresistível nos homens que nunca deixam de ter ar de rapazes que jogam à bola e vão a pé para o liceu. O olhar aceso de quem acabou de roubar chocolates da dispensa, o andar seguro, os cabelos sempre despenteados, as mãos claras, direitas e sem marcas do tempo e o riso tímido como se fosse sempre a primeira vez. São meninos para sempre e podem viver para sempre no coração de uma mulher.
Tu és assim uma espécie de rapazinho capaz de grandes tropelias que esconde a idade atrás da candura que nunca perdeste, apesar de todas as marcas que foste herdando dos dias. A infância guardada numa caixa escondida debaixo da cama, a adolescência dos copos e das drogas leves, a primeira vez que andaste à pancada, o medo do outro ser mais forte e de se rirem de ti, a vontade de sair de casa e abraçar o mundo, e depois a solidão repartida entre as raparigas que desejaste e nunca tiveste, as que tiveste mas não desejaste realmente, e a(s) outra(s). A que te incendiava o corpo e ao mesmo tempo te deixava o coração em pedra porque nunca sabias o que fazer com o amar tão intenso que ela te transmitia, o mais verdadeiro.
Mas vais crescer, hás-de crescer!, e perguntarás à tua imagem quem és tu afinal, a viver uma realidade que não é tua nem de ninguém, em que já perdeste uma ou duas raparigas que não soubeste ou quiseste amar da forma certa, aquela que faz com que as pessoas continuem juntas pela vida, como se tivessem sido separadas à nascença e um fio invisível as voltasse a unir, para sempre. E perguntarás à tua imagem onde vês um homem mais ‘baixo’, menos belo e menos inteligente do que na realidade pensavas que eras, se essa tal rapariga que já passou pela tua distracção pode voltar a ser tua, trazida pela divina providência, vestida de primavera com os cabelos bem esticados e compridos e um sorriso tão sem idade como o teu. imaginas a sua chegada como se descesse de um baloiço suspenso das nuvens, os braços estendidos, o cheiro adocicado da pele clara, a boca a pedir atenção e o olhar a perguntar-te se a vais escolher, quando foi ela que já te escolheu e só te está a dar a ilusão de que és tu que mandas na tua vida.
Ao espelho, onde vês o reflexo entre aquele que és e aquele que pensavas ser, respiras fundo e desejas realmente que ela volte, mas não demasiado cedo para te assustar nem demasiado tarde porque entretanto pode aparecer outra e tu vais deixar-te ir, convencido que é essa e não eu, a mulher da tua vida.
O que tu não sabes, meu querubim cansado, é que do outro lado do espelho eu te vigio, como se fosse o teu avesso e te protejo em sonhos, como se fosse o teu presente, e te desejo, como se pudesse ser o teu futuro, como aliás já estive tão perto de ser.
Mas é ainda demasiado cedo, é ainda tempo de guardar no silêncio dos dias a vontade de te querer. Por isso respiro fundo do outro lado da tua imagem, sentada no baloiço, lá mesmo em cima, para que não me vejas, e espero (...) espero que um dia dês o salto para o outro lado da tua vida e sejas quem sempre sonhaste para que te vejas ao espelho como eu já te imagino um dia, e como tu já és realmente, bem lá no fundo, e me convides a saltar do baloiço e a correr contigo, para o outro lado.

                                Feito por mim, com ideias de um excerto de Margarida Rebelo Pinto *

1 comentário:

Alexandra disse...

adorei, completamente... apesar de ter sido um texto que não é inteiramente teu, completaste o da melhor maneira! adoro a maneira como escreves! *

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